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A Quinta das Loureiras em Cascais
A Quinta das Loureiras
em Cascais
por João Aníbal Henriques

O ano de 1919 marca um período novo na vivência rural da Vila de Cascais. A antiga Quinta das Loureiras, onde outrora existiam importantes explorações agrícolas e pecuárias, vê terminada a construção do seu palacete. A sua face até aí exclusivamente rural, transforma-se nessa altura em mais um contributo para a vocação cosmopolita de um Cascais que abraçava de forma plena uma actividade turística que o País ainda conhecia muito mal.
De planta rectangular simples, com uma volumetria curiosa de génese erudita, a nova edificação da Quinta das Loureiras veio complementar um espaço onde já nem sequer faltava um airoso e moderno “court de tennis”. A profusa utilização do ferro, que surge como substituto dos antigos materiais utilizados nas construções vernáculas da região saloia e na generalidade das casas antigas da Vila de Cascais, oferece-lhe um cunho bem vincado, que completa um conjunto arquitectónico composto por um curioso telhado de duas águas com remate em platibanda recortada, e por uma escadaria externa em caracol que dá acesso ao andar superior.
Inovadora para a época, e ao mesmo tempo inserida naquilo que era o ambiente típico das construções românticas do final do Século anterior, a construção despertou curiosidade, e assumiu-se como marco indissociável da porta de entrada na localidade.
Apesar das mudanças, a Quinta das Loureiras, que se explanava pelo espaço hoje ocupado pelo centro comercial e por alguns dos prédios modernos que surgiram a ponte do seu terreno, continua durante quase toda a primeira metade do Século XX a manter uma produção importante de produtos hortícolas, que se venderam ainda durante muitos anos nos mercados saloios da Vila.
Em conjunto com a Quinta da Horta de Santa Clara, onde havia funcionado a antiga Fábrica de Lanifícios de Cascais e que a edilidade cascalense recentemente adaptou a Biblioteca Municipal, a Quinta das Loureiras representou um papel fundamental no sustento alimentar da população cascalense.
A memória daquele espaço, aliada a uma utilização de mais de um século, a uma qualidade produtiva e a uma fertilidade a que não devem ser estranhas as muitas nascentes de água que subsistem naquele lugar,  fazem da Quinta das Loureiras um espaço privilegiado para a consolidação da Identidade Municipal.
Apesar de ter desaparecido, levando consigo muitas das antigas características de Cascais, esta quinta e os seus equipamentos agrícolas (quem não se lembra da minúscula Vivenda Catita com o seu poço e com o tanque de retenção de águas) são ainda hoje fundamentais para a compreensão daquilo que foi a vivência rural do município.
Apesar de perdida no esquecimento que deriva do fulgor aristocrático que caracterizou a Vila de Cascais a partir de 1870, quando a Corte aqui se instala, a ruralidade cascalense foi o suporte mais importante de quase toda a História Local. Foi de espaços como o da Quinta das Loureiras, que envolviam a quase totalidade dos arrabaldes da vila, que saíram os produtos frescos que alimentaram os navios que fizeram os descobrimentos. Foi também daqui, ao longo dos séculos subsequentes, que se alimentaram as cabeças coroadas que escolheram Cascais como local de habitação.
Sem uma vivência rural pujante e plena, que complementava uma actividade piscatória cujas raízes de perdem no tempo, jamais Cascais teria atingido o desenvolvimento e o progresso que lhe permitiram tornar-se numa das referências do turismo Mundial.
Por ter sido simultaneamente um importante pólo agrícola de Cascais; um espaço privilegiado do cosmopolitismo da transição do Séc. XIX para o XX; e por ter sido, ao longo de muito anos, a sede de um importante colégio, por onde passaram muitas centenas de pequenos alunos portugueses e estrangeiros, a Quinta das Loureiras merece um espaço destacado na memória dos cascalenses.



A Quinta das Loureiras, em Cascais, situava-se no local onde actualmente se encontra a Avenida D. Pedro I, e o Centro Comercial Cascais Villa

João Aníbal Henriques
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